Atores da festejada Cia Teatral Clowns de Shakespeare encenam A mulher revoltada
Mariana Moreira
Peça fica em cartaz no CCBB até domingoNa segunda semana do projeto Nova Dramaturgia Brasileira, que propõe o intercâmbio entre dramaturgos e diretores na concepção de peças teatrais inéditas, a criação ganhou sotaque nordestino. Paulistano criado e radicado em Natal (RN), o diretor Fernando Yamamoto foi o responsável pela adaptação da dramaturgia A mulher revoltada, que estreia nesta quarta-feira (18/5) e fica em cartaz até domingo, no Centro Cultural Banco do Brasil. O autor, estreante no universo teatral, é o jornalista e escritor cearense Xico Sá, que acabou se entusiasmando com a experiência. Depois de superar a surpresa que o convite causou e as dificuldades com a redação das primeiras linhas, ele tomou gosto pela coisa. "O teatro não sabe o que fez. Eu sou teimoso e haverá outras tentativas", destaca Sá, que passou a se dedicar à leitura de textos teatrais.
Inspirado pela encomenda, que o autor considera uma das musas dos escritores contemporâneos, ele levou três madrugadas para escrever a história, que define como "amalucada", depois de um longo período de elaboração do enredo. "Apostei nesse universo que exploro nas minhas crônicas, a tragicomédia das relações homem-mulher", destaca. O estopim para o texto foi uma frase que o perseguia, e deveria sair da boca de uma mulher, que, em situações variadas, bradava: "Eu sou magra!".
A tal mulher revoltada do título virou a dona da frase, e ganhou o nome de Lucinha, que, aos trinta e poucos anos, é casada com um editor-chefe de jornal e tem um caso com um repórter iniciante, o famoso foca das redações. "O texto tem um pouco do que vivi ou testemunhei nas redações de jornal, mas com uma loucura de ficção, com um outro filtro. Como se eu fosse um jornalista muito mentiroso", diverte-se o novo dramaturgo. Na composição da trama, ele admite três influências: uma do estilo Woody Allen de fazer cinema, a dramaticidade e o machismo de Nelson Rodrigues, além do mundo exagerado e carregado de latinidade de Pedro Almodovar. Para indicar o clima de seu texto farsesco, ele ainda indicou uma trilha sonora de boleros, que vão de clássicos internacionais ao filão do brega brasileiro, com canções de Valdick Soriano e Nelson Gonçalves.
Quem recebeu seu texto de estreia foi Fernando Yamamoto, criador da Cia Teatral Clowns de Shakespeare. "Acompanho o trabalho do Xico Sá há bastante tempo e fiquei muito feliz por montar o texto dele, que é o único dos dramaturgos do projeto que eu já conhecia. Seu trabalho édivertido e gostoso de ler", afirma. Para ele, os principais méritos de A mulher revoltada são o humor politicamente incorreto e o gosto pela transgressão. Ao analisar a produção do dramaturgo iniciante, o diretor admite que em alguns momentos foi preciso tornar mais teatral a linguagem literária. No entanto, o original que recebeu estava livre de vícios comuns na dramaturgia contemporânea. No elenco, Dudu Galvão, Titina Medeiros, Joel Monteiro e Paula Queiroz. Todos da da Cia Teatral Clowns de Shakespeare.
Como já é tradição em sua companhia, Yamamoto fez os cantores interpretarem e tocarem ao vivo a trilha sonora, interpretando alguns boleros sugeridos por Sá e adicionando outros à mistura. A ação se passa em um típico boteco pé sujo, em que a mesa de sinuca se transforma em cama e outros móveis do bar são adaptados para dar a ideia de um quarto. "O projeto busca proporcionar encontros, criar um diálogo entre artistas de diferentes lugares. Esse balaio me encantou, me seduziu de cara", reconhece o diretor.
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