Felipe Moraes
Com sensibilidade, o autor reflete sobre o cotidiano e lembra uma época em que a cidade era tomada por versos
Fonte: Correioweb
Nas páginas de Navegante ao léu (Semim Edições), de José Sóter, ou apenas Sóter, como ele prefere ser chamado, as palavras vagam como “bilhetes de geladeira”. Como? “Não tem um tema específico, fica ziguezagueando, sem ordem, de forma aleatória. É um agrupamento de textos. Mais do que poesia, são recadinhos, daqueles que você vai acumulando”, diverte-se o autor, nascido no município de Catalão (GO) e que vive em Brasília desde 1977.
Antes do fim dos anos 1970, idas e vindas marcaram sua relação com a nova capital do país. Aqui se fixou em 1959, 1969 e 1973. Em seu décimo sexto livro, ele tenta definir, em versos ágeis, colagens com recortes de poemas e fotos de personagens da sua geração (a do mimeógrafo, dos anos 1970), a “alma brasiliense”. Sóter lança a obra nesta terça-feira (12/7), às 17h, no Quiosque do Ivan Presença (Conic).
“Quis reverenciar esse processo de construção da alma brasiliense: pessoas importantes na minha concepção como poeta, a frase de um, a postura de outro”, conta. Com ilustrações de Zé Nobre, Sóter viaja no tempo e tenta reproduzir o espírito de uma época em que a cultura da cidade ainda desabrochava. “A primeira referência foi justamente o movimento poético. Esse sentimento nasceu com os poetas marginais dos anos 1970 e depois inspirou tudo isso: manifestações ao ar livre, ocupação dos espaços, a música dos anos 1980, o teatro, as artes plásticas, o cinema. Todas as linguagens foram afetadas por essa tomada de atitude da poesia”, explica o escritor.
Arte cidadã
“Brasília não é maquete. Tem gente”, filosofa o autor. Sóter constrói a sua métrica da maneira mais espontânea possível. Ele leva consigo o descompromisso de um observador que não tem pressa, que tem o relógio como aliado: olha na direção do horizonte e não se angustia com a imensidão que os olhos mal dão conta de focalizar. Olha e apenas preenche o branco do papel com seus versinhos modernosos e profundos. “Não há predisposição para escrever, por exemplo, sobre a maneira como a arquitetura de Niemeyer interfere no nosso cotidiano. Estamos apenas à disposição da cidade, e ela está à nossa disposição. É uma troca constante”, acredita.
O poeta tenta trazer de volta a ousadia de tempos passados, em que o regime militar ditava as regras e Brasília, uma cidade ainda jovem demais, que abria suas largas avenidas para a contribuição de gente de toda a parte. Para Sóter, a capital permanece assim: um mar infinito, onde é possível navegar livremente. “Todo mundo que, digamos, ‘aportou’ aqui veio com essa concepção de viajar por novas propostas”, pensa.
Arte cidadã
Fonte: Correioweb

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