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terça-feira, 19 de julho de 2011

Projeto Mitos do teatro brasileiro homenageia Plínio Marcos

Mariana Moreira
 
João Paulo Oliveira e J. Abreu vivem alter-egos de Plínio
Menino pobre de Santos, São Paulo, Plínio Marcos queria ser jogador de futebol. Não deu. Depois da frustração de não virar craque da bola, ele entrou para a Aeronáutica, trabalhou como funileiro, vendedor de livros, palhaço e zelador de teatro. Mas foi com a caneta na mão que ajudou a revolucionar o universo cênico, transformando-se no dramaturgo mais polêmico e censurado de todos os tempos no país. Pela primeira vez, o submundo marginal, de homens maltrapilhos, na contramão da história, ganhava lugar de destaque no palco. A luta encampada por Plínio Marcos será o assunto do segundo encontro do projeto Mitos do Teatro Brasileiro, nesta terça-feira (19/7), às 20h, no Teatro do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB).

Desta vez, os convidados a tecer suas memórias teatrais diante da plateia são dois atores consagrados no Brasil e personagens essenciais da engrenagem criada por Plínio Marcos: Nelson Xavier e Emiliano Queiroz, que estiveram na primeira versão da peça Navalha na carne, além de muitas outras criações do dramaturgo. "Conheci o Plínio nos anos 50, numa excursão que o Teatro de Arena fez a Santos. Ele era um dos espectadores. Varamos a madrugada conversando e ele me encantou de saída, porque era do circo, que representava a aventura, o mistério, a magia", recorda Nelson Xavier, acrescentando que nesta época, ele já possuia uma de suas características mais marcantes: o vocabulário recheado de palavrões. "Ele tinha uma fala peculiaríssima, uma linguagem marginal, era um rebelde por escolha", afirma Xavier.

Seu companheiro nesta edição de Mitos, Emiliano Queiroz ressalta a renovação que suas obras representaram na cultura nacional. "Até então, a dramaturgia era dirigida à classe média, à roça e à comédia de costumes. Mas ele trouxe essas almas marginalizadas, chocando a opinião pública e as leis que regiam o país", relata o ator, que dirigiu a única montagem do único musical que Plínio escreveu, todo em versos, e batizou de Feira Livre. "Minha entrada na obra dele foi um divisor de águas para minha carreira. Gosto de falar sobre como senti na pele a ressonância dos textos do Plínio, como a plateia me devolvia o que eu jogava pra ela", avisa

Além dos depoimentos, a noite contará com a exibição de vídeos, trechos de entrevistas do autor "maldito" e mais três cenas inéditas, criadas pelo dramaturgo e idealizador do projeto, Sérgio Maggio. As primeiras retratam um dos lados mais emblemáticos e difíceis de sua carreira: o cerco do governo militar e da censura às suas obras. Embora não tivesse uma abordagem política do país, sua decisão dar voz à miséria humana, falando de marginalidade, violência e sexo sem suavizar nas tintas, incomodava os militares. Durante um longo período, a simples menção a seu nome era sinal de que o espetáculo não seria liberado pelos censores.

No primeiro trecho da encenação, os atores João Paulo Oliveira e J. Abreu encenarão o momento em que Veludo, personagem de Navalha na carne, recebe a visita de um homem misterioso, em busca de Plínio Marcos. Em seguida, eles dão vida a dois censores que fazem a leitura da peça Abajur lilás para uma plateia de pessoas ligadas à ditadura, com a intenção de simular uma rejeição popular ao texto. Na reta final da noite, a dupla interpreta dois alter-egos de Plínio Marcos: suas porções palhaço e vendedor de livros.

Escalado para a homenagem, o ator João Paulo Oliveira, que intercala o teatro e o cinema com sua carreira de publicitário, volta à cena depois de quase quatro anos subir no tablado. "Plínio Marcos criou uma vertente própria, muito moderna. Trouxe para o teatro uma linguagem mais crua, que já existia no cinema e na literatura, por exemplo", avalia. Co-diretor e ator de todos os tributos, J. Abreu terá o privilégio de encarnar o universo de Plínio pela primeira vez. Há duas décadas, ele quase integrou o elenco de uma montagem de Abajur Lilás. "O que mais me deixa instigado é a perseverança dele. Estudou até a terceira série e conseguiu ser um dos maiores dramaturgos do Brasil. Enfrentou a ditadura, o desemprego, a falta de dinheiro para fazer o que queria", diz o ator.

Fonte: Correioweb

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