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quinta-feira, 2 de junho de 2011

Cia baSiraH apresenta espetáculo inspirado no mito grego das mulheres que mataram os maridos

Mariana Moreira
Coreografias foram baseadas no texto As suplicantes, de Ésquilo
Dânao, rei da Líbia e de Argos, teve 50 filhas e, um dia, decidiu fechar um acordo concedendo as mãos de todas elas em casamento aos 50 filhos de seu irmão, Egito. Depois de muitas guerras, a epopeia terminou de forma sangrenta: na noite de núpcias, elas embebedaram e mataram seus maridos. Em linhas gerais, assim se desenrola a narrativa do mito grego Danaides, que inspirou o baSiraH — Núcleo de Dança Contemporânea a desenvolver sua nova coreografia, de mesmo nome. O espetáculo estreou no Gama e fica em cartaz de desta quinta-feira a 12 de junho, no Teatro Plínio Marcos, na Funarte.

A inspiração surgiu quando a diretora da companhia, a bailarina Giselle Rodrigues, frequentava as aulas de processo criativo durante o doutorado, na Universidade de Brasília (UnB). O professor Marcus Mota apresentou As suplicantes, texto de Ésquilo, que trouxe a história até os tempos atuais, e a verve criativa de Giselle se acendeu de imediato. “São textos muito imagéticos e plásticos. Uma das descrições era de mulheres que lutavam contra homens nus. Imagine criar uma cena a partir dessa imagem”, explica ela.

Mota, colega de Giselle no corpo docente do Departamento de Cênicas da UnB, foi convidado a compartilhar com a trupe seus conhecimentos de tragédia grega, e ficou responsável por toda a fundamentação teórica do espetáculo. Como há várias versões para a mesma história, coube a ele apresentar as variações, para que o baSiraH fizesse sua própria leitura.

A partir dessas informações, os bailarinos envolvidos passaram a sugerir movimentos e a construir a encenação em um processo coletivo. “Nossa preocupação não é tanto em contar a história, mas em levantar alguns pontos fortes, como a transgressão do feminino que destrói o status masculino da virilidade, do poder e da força”, sinaliza a diretora da companhia, que também buscou imprimir no trabalho um reflexo dos conflitos de gênero, a luta pelo poder e a violência contra as mulheres.

Em Danaides, não há protagonista. O conceito de coro, presente nas tragédias gregas, ganha a leitura do movimento coletivo executado por 15 bailarinos, dando a ideia da massa humana que move a saga familiar. Outro recurso da montagem é a sobreposição de imagens em cena. Enquanto uma ação se desenvolve em primeiro plano, outra complementar ocorre logo atrás. “Essas sobreposições surgiram para trazer a atmosfera do mito e dar conteúdo à história”, explica Giselle.

Durante as imersões teóricas, os bailarinos compreenderam a característica “líquida” do mito: há sangue e suor dos homens e lágrimas femininas. Durante uma fuga, as irmãs atravessam mares e, em uma das versões disseminadas, são transformadas em fontes de fertilidade. A opção estética para reforçar essa ideia foi investir em um cenário plástico, de textura difusa. Os figurinos apostam na transparência. “O mito é uma coisa pesada e a gente quis dar um contraponto nessa leveza”, afirma a diretora.

O mito
Segundo a versão adotada pelo grupo, o rei Dânao teve 50 filhas, com mulheres diferentes, as danaides. Egito, seu irmão, também teve 50 filhos, os egiptíades. Para que as posses continuassem na família, Egito propôs a Dânao que todos os filhos se casassem entre eles. A proposta não foi aceita e o pai das danaides decidiu fugir com todas elas para Argos. Tempos depois, a proposta de casamento foi confirmada. No entanto, na noite de núpcias, elas embebedaram os homens e cortaram seus pescoços. A única que não cumpriu o plano foi Hipermnestra, que fugiu com o marido (e primo), Liceu. Danaides também são borboletas andarilhas, que voam grandes distâncias, e reforçam o mito das mulheres em fuga.


Fonte: Correioweb

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